O papa Leão XIV fez um pedido histórico de perdão pelo papel da própria Igreja Católica na legitimação da escravidão ao longo dos séculos. A declaração foi publicada na encíclica “Magnifica Humanitas”, divulgada pelo Vaticano nesta segunda-feira (25).
No documento, o pontífice reconhece que a Igreja demorou a condenar oficialmente a escravidão e admite que antigos líderes religiosos autorizaram soberanos europeus a subjugar e escravizar povos considerados “infiéis” durante a expansão colonial.
Segundo o texto, a Igreja renova a condenação a todas as formas de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas. Leão XIV afirmou que ignorar essas práticas na atualidade tornaria a instituição cúmplice dos erros históricos já cometidos.
O papa também reconheceu que, durante a Antiguidade, a Idade Média e parte da modernidade, integrantes da própria estrutura eclesiástica possuíam escravizados e participaram da legitimação desse sistema. Em um dos trechos da encíclica, o pontífice classificou a escravidão como uma ferida profunda na memória cristã e pediu perdão em nome da Igreja Católica pelo sofrimento causado ao longo da história.
O posicionamento é considerado inédito porque, embora outros papas tenham se manifestado sobre o tráfico de escravizados no passado, esta é a primeira vez que um líder da Igreja reconhece oficialmente a participação institucional do Vaticano na autorização e legitimação da escravidão.
O documento relembra episódios históricos do século XV, quando bulas papais concederam autorização a monarcas europeus para conquistar territórios na África e nas Américas e escravizar populações não cristãs. Entre os exemplos citados está a bula “Dum Diversas”, publicada em 1452 pelo papa Nicolau V, que autorizava o reino de Portugal a subjugar “sarracenos, pagãos e outros infiéis”.
A encíclica também estabelece relação entre os desafios atuais da humanidade, especialmente o avanço da inteligência artificial, e os impactos históricos de sistemas de exploração humana. O texto faz referência à encíclica Rerum Novarum, publicada pelo papa Leão XIII durante a Revolução Industrial.
O tema da escravidão já havia sido abordado anteriormente por João Paulo II, que pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravizados praticado por cristãos em 1985 e classificou a escravidão, em 1992, como uma tragédia de uma civilização que se dizia cristã.




