Levantamento analisou registros de violência doméstica em cinco capitais brasileiras, incluindo Porto Alegre, entre 2023 e 2025
Os registros de violência contra a mulher aumentam em dias de jogos de futebol, segundo levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta terça-feira (11). A pesquisa analisou ocorrências registradas em cinco capitais brasileiras — Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte — e cruzou os dados com o calendário de partidas do Campeonato Brasileiro, da Libertadores e da Copa Sul-Americana entre 2023 e 2025.
De acordo com o estudo, nos dias em que um time da cidade disputou uma partida, independentemente de o jogo ter ocorrido em casa ou fora, houve aumento de 27,4% nos registros de ameaça contra mulheres e de 28,8% nos casos de lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica.
O levantamento não aponta o futebol como causa direta das agressões. A avaliação é de que as partidas podem funcionar como um fator de intensificação de situações de violência que já estão presentes nas relações familiares. O aumento do consumo de bebidas alcoólicas e das apostas esportivas durante os jogos também é apontado como possível elemento associado ao fenômeno.
Violência ocorre principalmente dentro de casa
Apesar da relação observada com os dias de jogos, a maior parte das ocorrências analisadas acontece dentro das residências.
Segundo os dados do levantamento, 47,3% dos registros de ameaça e 62,8% das lesões corporais ocorreram dentro de casa. O cenário reforça a necessidade de ações de prevenção e atendimento à violência doméstica também fora dos ambientes esportivos.
O estudo também identificou que o aumento registrado entre 2023 e 2025 foi superior ao observado na primeira edição da pesquisa, que analisou dados de 2015 a 2018. Na ocasião, os registros de ameaça haviam crescido 23,7% e os de lesão corporal, 20,8% em dias de jogos.
Diferenças entre mulheres negras e brancas
A pesquisa também analisou os registros considerando a raça das vítimas. As mulheres negras aparecem como maioria entre as vítimas, mas o levantamento identificou uma variação proporcionalmente maior nos registros envolvendo mulheres brancas em dias de partidas.
Entre as mulheres negras, os casos de lesão corporal aumentaram 23,2% e os de ameaça, 14,6% em dias de jogos. Entre as mulheres brancas, os registros cresceram 36,2% para lesão corporal e 30,9% para ameaça.
O levantamento apresenta diferentes hipóteses para essa diferença, relacionadas às condições socioeconômicas, à exposição à violência e às mudanças na rotina familiar durante os horários das partidas.
Cenário nacional
A pesquisa também chama atenção para o crescimento da violência contra as mulheres no país. Dados citados pelo estudo apontam que 37,5% das mulheres brasileiras relataram ter vivenciado alguma situação de violência em 2024, conforme levantamento divulgado em 2025.
O Brasil também registrou 1.571 feminicídios em 2025, além de aproximadamente 280 mil boletins de ocorrência por lesão corporal dolosa relacionada à violência doméstica e 790 mil registros de ameaça.
Recomendações
Entre as medidas sugeridas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública estão a criação de espaços de acolhimento e registro de ocorrências dentro dos estádios, ações preventivas relacionadas ao consumo de álcool e às apostas esportivas, iniciativas de educação sobre masculinidades e protocolos específicos nos clubes.
O estudo também defende que as políticas de enfrentamento à violência doméstica considerem os calendários esportivos, especialmente porque uma parcela significativa das ocorrências acontece dentro das próprias residências.




