Pesquisadores identificaram, pela primeira vez, evidências moleculares diretas da presença da varíola entre populações indígenas das Américas durante o início do período colonial espanhol.
O DNA do vírus foi encontrado em múmias de duas pessoas enterradas na região de Camarones, no norte do Chile, área que fazia parte do antigo Império Inca. Uma das vítimas era uma mulher entre 30 e 35 anos, enquanto a outra era um homem de aproximadamente 18 a 20 anos.
De acordo com o estudo, publicado na revista científica Science, os dois indivíduos viveram durante um período concentrado no século 16, quando os espanhóis avançavam sobre os territórios americanos. As análises indicaram que os vírus encontrados pertenciam a uma linhagem extinta da varíola, situada geneticamente entre cepas identificadas na Europa medieval e outras que circularam posteriormente.
A chegada da doença teve consequências devastadoras para as populações indígenas, que não haviam sido expostas anteriormente ao vírus e, portanto, não possuíam imunidade natural. A transmissão contribuiu para grandes epidemias e para uma expressiva redução populacional durante o processo de colonização.
Os genomas encontrados nas duas múmias eram quase idênticos, o que indica que as vítimas podem ter sido infectadas durante o mesmo surto ou pela mesma linhagem do vírus.
Os corpos foram naturalmente mumificados e estavam envolvidos em tecidos e acompanhados por objetos funerários. Os pesquisadores conseguiram estabelecer que a infecção ocorreu provavelmente em algum momento do século 16, mas não foi possível determinar a data exata.
O estudo também trouxe informações sobre a evolução do vírus. Segundo os pesquisadores, a varíola passou por um longo processo de mudanças genéticas antes do século 16, mas esse ritmo teria diminuído durante as grandes epidemias associadas à colonização. A evolução voltou a se acelerar posteriormente, após a introdução da primeira vacina contra a doença, no final do século 18.
A varíola permaneceu entre as principais doenças infecciosas da história por séculos. O último caso natural foi registrado na Somália, em 1977. Em 1980, a Organização Mundial da Saúde declarou a doença oficialmente erradicada em todo o mundo.




